quarta-feira, 8 de julho de 2009
Guerra Entre Quatro Paredes
de Margarida Vieitez
Crises conjugais: Não aguento mais!
por Kátia Catulo, Publicado em 04 de Julho de 2009
A mediadora familiar Margarida Vieitez explica no seu primeiro livro quais os motivos que desgastam uma relação
Os sinais de desgaste de um casamento surgem quase sempre no início de uma relação, adverte Margarida Vieitez
A discussão termina todos os dias em gritos e insultos. Um quer sair à noite e o outro não; ela chega tarde e ele zanga-se; há um que gasta demais e outro de menos; ambos querem ir de férias e cada qual escolhe um destino. Tudo serve para subir o tom, para um deles sair do quarto, levar a almofada e dormir no sofá. As zangas, os medos, os ressentimentos, o silêncio entram no consultório da mediadora de conflitos conjugais e ficam várias semanas a ser dissecados até indicarem uma de duas portas - o fim ou o recomeço. Margarida Vieitez ouviu durante 15 anos todas as histórias e seleccionou algumas para escrever "Guerra Entre Quatro Paredes" que a editora Esfera dos Livros lançou esta semana: "É um livro de sinais, de alertas e de reflexões para os casais conseguirem perceber quais as razões que desgastam a relação." Os indícios são visíveis a olho nu e aparecem quase sempre no princípio. "Só que a maioria prefere fechar os olhos e mergulhar de cabeça numa paixão." Até ao momento em deixa de ser possível ignorar os problemas que minam um relacionamento: "Expectativas defraudadas ou dificuldade em aceitar o outro são algumas das grandes dificuldades identificadas entre os casais."E deixar de falar é o maior dos erros, avisa a terapeuta familiar. Fingir que está tudo bem. Esperar que os problemas desapareçam sem fazer nada para isso é o mesmo que acreditar em milagres. A estratégia tem quase sempre um único resultado: "O casal afasta-se cada vez mais até ao dia em que olham um para o outro e descobrem que já não se reconhecem." Ficam sozinhos, sem vontade de conversar e sentem-se perdidos: "É o momento de se sentarem frente-a-frente e forçar o diálogo." Se a estratégia falhar é sempre possível recorrer à terapia de casal. "Ainda há muita resistência em pedir ajuda profissional, não só por falta de divulgação, mas também por se recear uma invasão na intimidade." Não se julgue que só por entrar num consultório de mediação familiar um casamento será resgatado. Haverá sempre histórias que terminam em divórcio. "A separação é uma decisão solitária que nunca surge de ânimo leve", avisa Margarida Vieitez. É preciso perceber quando vale a pena insistir e quando chegou o momento de desistir. "Muitas vezes não há como restaurar o amor, a confiança e o respeito" - os três pilares que a terapeuta defende como obrigatórios para manter uma vida em conjunto. "No dia em que isso deixar de acontecer, significa que um ou ambos anularam a identidade e deixaram de existir."O divórcio, esclarece a mediadora em conflitos conjugais, é uma "guerra de silêncios". É não fazer as refeições em conjunto, dormir em quartos separados, evitar a intimidade ou não ter vontade de regressar a casa. "É preciso saber terminar uma relação com dignidade, o que acontece poucas vezes." Boa parte dos casais deixa a relação arrastar-se e espera por motivos fortes para tomar uma decisão. "Usam a infidelidade, a agressão verbal ou física para justificarem o divórcio, quando os motivos começaram muito antes", conta Margarida Vieitez.Mesmo que o divórcio seja o caminho, é preciso continuar a falar: "Perceber o que aconteceu, assumir responsabilidades sem atribuir culpas é um processo obrigatório para qualquer casal que opta pela separação", adverte a especialista. Decifrar todos os passos que conduziram ao fim do casamento é a única saída para não cometer os mesmos erros em futuras relações. "Caso contrário, corre-se o risco de saltar de pessoa em pessoa sem qualquer perspectiva."O fim é o início de um outro capítulo em que é preciso aprender que o "amor não basta por si só para suportar um casamento." Exige esforço diário, mesmo quando há filhos para cuidar, empregos para assegurar ou resto do quotidiano a consumir tempo e energia. "Pode parecer tarefa quase impossível, mas todos nós nos lembramos da ginástica que fazíamos no começo de uma relação para conseguirmos ficar juntos, nem que fosse por pouco tempo." Estabelecer prioridades é o principal trunfo para vencer a rotina. E saber que o amor não é eterno é o passaporte para uma relação duradoura. "A última atitude que devemos ter é encarar o outro como uma casa ou um carro que irá continuar a existir enquanto essa for a nossa vontade."Sempre que a rotina se transformar numa máquina sem travões será necessário inventar pelo menos dez minutos por dia para o casal se encontrar a sós. Namorar, brincar ou conversar são hábitos diários a manter a todo o custo. Um dia por mês deverá ser dedicado a uma curta viagem para partilharem "necessidades e preocupações", aconselha a mediadora familiar. São gestos que funcionam como pilhas de longa duração para um casamento, desde que ninguém se esqueça que qualquer relação fracassa quando "ambos ou apenas um" abdica do seu próprio espaço e afasta o ciclo de amizades, mesmo quando o amor é absorvente e tem dificuldade em dividir o tempo com os outros: "O casamento não é como subir uma montanha e ficar sentado no topo. São várias montanhas que têm de ser escaladas todos os dias", remata a mediadora em conflitos conjugais.
I, 4-7-2009
http://www.ionline.pt/conteudo/11729-crises-conjugais-nao-aguento-mais
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